Eivado de identitarismo, “Marighella” evoca rivalidades da Guerra Fria que precisamos superar

Por João Mulato

Que o Brasil precisa retomar um Projeto Nacional que não se limite ao falatório vazio e ao uso estéril de símbolos pátrios, poucos nacionalistas genuínos discordarão. Precisamos pôr em marcha aquilo que Aldo Rebelo chama de “O Quinto Movimento”: um projeto que constitua um Estado forte capaz de coordenar o setor privado, promover a reindustrialização, fortalecer nosso poderio militar, nos projetar geopoliticamente e defender a cultura, a religião e os valores tradicionais brasileiros. Tudo isso energizado por um movimento nacionalista organicamente enraizado no seio da sociedade. 

Ocorre que esse projeto jamais se materializará sem o protagonismo real de nossas Forças Armadas. São delas não só a missão institucional de defesa da soberania, mas, sobretudo, o papel de irradiadora número 1 do espírito patriótico da Nação. É assim que se dá nas potências mundiais, é assim que deve ser no Brasil. Não podemos ter quaisquer dúvidas quanto a isso.

É sob esse entendimento que podemos classificar como contraproducente aos interesses nacionais todo esforço contemporâneo de atribuir aos militares a imagem de párias do país, como faz parte expressiva das obras cinematográficas acerca do Regime Militar (1964-85). O motivo é patente: iniciativas desse tipo não raro têm alimentado um vasto e violento sentimento divisionista que emana da disputa sobre a memória desse período. E isso para deleite das Potências Estrangeiras. Divide et impera, já dizia Júlio Cesar. 

“Marighella”, filme sobre o mais famoso dos guerrilheiros brasileiros e lançado em tempos da maior polarização política de nossa história recente, incorre justamente nesse equívoco. Dirigido por Wagner Moura, o longa-metragem busca retratar Carlos Marighella em uma luta justa contra um regime que, para efeitos de narrativa, é retratado unicamente como antidemocrático e repressor (quando sabemos que ele não pode ser visto só dessa forma, vide feitos como Embraer, Programa Nuclear e PND 2).

Ainda que a decisão de realizar a obra seja legítima do ponto de vista historiográfico, é inegável que ela acaba servindo de combustível para inflamar o antagonismo cada vez mais sem sentido entre “esquerda e direita” que aprisiona o Brasil. Para os “destros”, o filme seria uma apologia a um terrorista demoníaco sedento por implantar o Comunismo no país, enquanto para os “canhotos”, tratar-se-ia de uma homenagem a um guerrilheiro que se fez mártir no combate a uma ditadura sanguinária.

Carlos Marighella não foi nem um nem outro, ou, talvez, tenha sido um pouco dos dois. Como todo personagem histórico, era dotado de complexidades que impedem uma caracterização maniqueísta definitiva, a não ser se feita sob um fervor ideológico cego ou desavisado. Certo, apenas, é que sua ação à frente da ALN se tratou de uma aventura corajosa, mas absolutamente insana, sem qualquer lastro na realidade do Brasil daqueles tempos, como a própria História demonstrou de maneira cabal. Infelizmente, isso não se deu sem que houvesse vítimas desnecessárias, seja entre os jovens atraídos pelo idealismo da guerrilha, seja entre os cabos e soldados dos aparatos de segurança, seja ainda entre os civis que não pertenciam a nenhum dos lados e apenas queriam levar uma vida normal.

Mas estamos em 2021, a democracia formal já foi restabelecida há mais de três décadas, o mundo comunista não existe mais e a ordem geopolítica é outra: a da Multipolaridade, que abre janelas de oportunidade incríveis ao Brasil. De forma que não poderíamos, sob hipótese alguma, nos darmos ao luxo de seguir alimentando rivalidades oriundas dos tempos da Guerra Fria, que, como bem sabemos, foi o grande fator geopolítico que nos levou ao Regime Militar. Essas rivalidades precisam ser superadas o quanto antes, a fim de que possamos criar um mínimo de consenso entre setores-chave da sociedade, como entre militares e intelectuais desenvolvimentistas. Lamentavelmente, “Marighella” desperta emoções que nos empurram para a direção contrária, perpetuando a anomia política do divisionismo entre brasileiros, enquanto países como China, Rússia e Turquia seguem fortalecendo seus projetos nacionais em um mundo que vê o Ocidente vivenciar uma crise civilizacional sem precedentes.

Além de evocar rivalidades anacrônicas, “Marighella” apresenta também outro elemento divisionista, dotado de um caráter talvez até mais pernicioso e que vem sendo impulsionado pelas Finanças Transnacionais com força nos últimos anos: o identitarismo. Falamos aqui das bandeiras políticas que já se tornaram signo magno da Nova Esquerda e que envolvem as causas identitárias do Feminismo, do Movimento Negro e da comunidade LGBT. 

No caso de “Marighella”, há nitidamente a opção pelo identitarismo em sua vertente racial, algo que fica claro logo no pôster do filme, que traz Seu Jorge, um homem negro, no papel do personagem principal. Acontece que Marighella não era negro, mas um mulato baiano, como o próprio gostava de se definir. Ao racializar deliberadamente o guerrilheiro, em uma escolha nitidamente política, Wagner Moura buscou transformá-lo em uma espécie de herói do povo negro, algo que obviamente ele nunca foi. Basta lembrarmos que o grande traço que o distinguia enquanto personagem histórico era o de revolucionário comunista, fato que o torna muito mais próximo de Mao Tsé-tung do que de Martin Luther King ou de Abdias do Nascimento. 

A projeção do identitarismo racial também se dá em alguns trechos do filme, sendo o principal deles – e talvez o mais constrangedor – o que envolve um diálogo entre Marighella e Frei Henrique (este último, encenado pelo pastor identitário e ex-vereador do PSOL Henrique Vieira, outra escolha de natureza política bastante evidente). Nele, o religioso argumenta que Jesus seria negro pelo fato de Maria ter fugido temporariamente com ele ainda bebê para o Egito, onde não chamaria atenção, já que o continente africano seria habitado exclusivamente por negros. Ocorre que para além do caráter esdrúxulo da argumentação (quem disse que não havia semitas na região do Sinai naqueles tempos?), a cena é inserida na trama de forma absolutamente artificial, sem exercer qualquer função junto às cenas vizinhas, mostrando-se uma forçação de barra difícil de passar despercebida. Para completar, Henrique, durante o sermão que faz a seu interlocutor, profere um “nós” como se ele e Seu Jorge fizessem parte da população negra, quando o pastor é visivelmente moreno. Novamente, vemos aí uma opção política baseada na ideologia identitária norteando a trama da obra.

Sob a ótica da crítica cinematográfica, seria possível fazer todo um vasto conjunto de observações de caráter estético e narrativo, mas que por não configurar o mote central deste texto será resumido em alguns pontos. Entre os positivos, está a excelente fotografia, que conseguiu retratar de forma bastante fidedigna a atmosfera da vida urbana brasileira dos fins dos anos 60, além do emprego correto dos recursos de câmera nervosa e de planos-sequência. Há que se fazer ainda uma menção honrosa à exemplar atuação de Bruno Gagliasso como o implacável e cruel Sérgio Fleury, chefe do DOPS e carrasco de Marighella.

Já entre os pontos negativos, podemos citar os tradicionais problemas de roteiro que parecem ser uma das marcas do cinema brasileiro (no cinema argentino eles raramente acontecem, diga-se), sobretudo no que diz respeito ao excesso de cenas de alta carga emocional, que acabam dessensibilizando o espectador ao longo da trama e prejudicando a fruição da obra. Mas, sem dúvida, a principal falha do filme está relacionada à ausência de um ator que pudesse encarnar as características que todos esperaríamos ver em um chefe de uma guerrilha revolucionária apontado como inimigo número 1 do Estado: poucas expressões faciais, voz de comando, timbre não-oscilante, presença ameaçadora, gestos decididos, olhar penetrante e comportamento obstinado. Algo como Marlon Brando realizou no inesquecível papel de Dom Corleone em “O Poderoso Chefão”. Seu Jorge, com suas feições demasiadamente humanas, definitivamente não era o homem certo para o trabalho.

Ator de personagens marcantes, Wagner Moura, ao incumbir-se da tarefa de gravar “Marighella”, mostrou-se um diretor mediano em termos artísticos e equivocado sob o prisma do realismo político. Que ele e todo o restante da classe cinematográfica brasileira tenham a sabedoria de compreender os pormenores do momento histórico pelo qual passamos e possam, com algum desprendimento, realizar novos filmes que apontem o Brasil em direção ao futuro, deixando de lado ressentimentos do passado que apenas contribuem para perenizar nossos conflitos internos.

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