Identitarismo, a Doença Infantil do Esquerdismo

Por Felipe Quintas

São sabidas as diferenças entre os ditos identitários de hoje, que centram seu ativismo em questões de etnia e sexualidade, e os comunistas de outrora, voltados principalmente para a questão de classe.

Eles guardam, todavia, uma semelhança: veem a política como sendo basicamente um conflito de vida e morte entre oprimidos e opressores (o branco misógino transfóbico é o paralelo identitário do burguês imperialista dos comunistas de outrora), ainda que disfarcem seu maniqueísmo com falsas concessões a grupos cujos representantes reais nunca lhes satisfazem completamente (o “privilegiado consciente”, para os identitários, e a “burguesia nacional” para os comunistas).

Daí que, para ambos, a defesa de pautas concretas, por mais justas e razoáveis que sejam, são sempre um pretexto para a eliminação política, no limite também física, dos seus inimigos a priori. Não basta para um identitário aprovar a união civil homossexual, mas abolir a família patriarcal e seus praticantes e defensores. Da mesma forma como não bastava para um comunista distribuir terras públicas aos sem-terra, mas destruir o “latifúndio imperialista” e seus representantes ou supostos representantes, todos “traidores do povo”.

Desse modo, a única realização efetiva de identitários, hoje, e comunistas, no passado, foi queimar o filme de pautas e agendas que seriam facilmente aceitáveis pela maior parte da sociedade e dos dirigentes, até mesmo conservadores, e atiçar a radicalização de setores reacionários opostos a elas, criando, assim, um clima de conflagração política e social que só interessava aos ativistas profissionais, e nunca aos setores sociais que eles dizem defender.

A violência retórica deles só conseguiu, portanto, retardar a realização de bandeiras que, quando efetivadas, sempre o foram com base em amplo consenso e moderação, muitas vezes puxadas por conservadores. Foram os casos, por exemplo, da união civil homossexual, que, aprovada sem estardalhaço há cerca de 10 anos pelo Judiciário quando esse ainda não estava tão politizado, jamais causou polêmica e sua retirada sequer foi cogitada pelo governo Bolsonaro, e da reforma agrária, que só conseguiu ser instituída em lei no governo Castelo Branco, que aprovou ainda em 1964 o Estatuto da Terra, vigente até hoje, com o apoio inclusive das bancadas do PTB e do PSD, uma vez suprimidos pela força os carbonários que, aproveitando-se da boa vontade do Jango, ameaçavam promover invasões rurais em massa para aprovar a lei da reforma agrária.

Moral da história: as grandes mudanças no Brasil são sempre feitas com base em amplas conciliações. Os resultados são sempre imperfeitos, pois a realidade sempre é imperfeita. Mas é melhor ter alguma coisa efetivada de forma imperfeita do que buscar alucinadamente a perfeição e ficar sem nada, e ainda destravar conflitos nos quais a corda sempre arrebenta no lado minoritário, quase sempre o mais radical e inflamado.

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