A hora de aposentar Lula

Por Felipe Quintas

Como Lula ainda é uma figura politicamente ativa, é natural que haja muita polarização e pouco esclarecimento acerca dele. Uns acham que foi o maior presidente e estadista da história, outros acham que ele não fez nada e/ou que só roubou. Nenhuma dessas leituras é acertada.

Como sindicalista, foi o líder operário possível num contexto em que o Brasil amadurecia o seu industrialismo. O novo sindicalismo, emulando as social democracias europeias, foi um contrapeso às oligarquias civis e as obrigou a certas concessões, inscritas na Constituição Federal de 1988. O sindicalismo como existia na época do Getúlio não era mais possível dada a maior complexidade da sociedade – e o próprio Getúlio desejava que o seu modelo fosse um ponto de partida para uma “social-demcoratização” do sindicalismo – e o sindicalismo como os comunistas queriam não era desejável e só interessava à linha-dura militar. Se Geisel e Golbery realmente incentivaram o “novo sindicalismo”, foi porque tiveram a sensibilidade de entender que não se poderia redemocratizar um país em rápida industrialização sem um sindicalismo desse tipo.

Como presidente, foi o único de toda a Nova República que deixou um país maior do que o que pegou, e, por isso mesmo, foi o único a ser preso. Recuperou muitos projetos desenvolvimentistas estratégicos abandonados desde o fim do Regime Militar e projetou o Brasil como potência sul-americana e sul-atlântica, ao melhor estilo Bonifácio, Getúlio e Figueiredo, barrando o delírio “patriagrandista” do Chávez, sem permitir que os EUA interviessem na América do Sul.

Contudo, sobretudo no plano interno, fez vistas grossas para o destruição institucional que Collor e FHC fizeram, o que atravancou o crescimento e a geração de empregos no Brasil. Se o governo Lula tivesse vindo 15 anos antes, com CSN, Usiminas, Vale do Rio Doce, Cacex e tudo isso ainda de pé, o Brasil teria vivido outro milagre econômico e hoje estaríamos melhores que a China, já que éramos bem maiores que ela naquela ocasião.

E hoje, o que eu acho da candidatura do Lula? Um tremendo erro. Se perder, sairá da política humilhado, derrotado, em tese, pelo povo que comeu picanha e andou de avião no seu governo. Se ganhar, vai pegar um Brasil muito pior, menor e mais instável do que o de 2003.

Refém da Juristocracia, que é central no desmonte do país, ele não terá tempo nem meios institucionais e morais para recompor o que foi perdido e poder fazer um governo decente. Está arriscado, inclusive, de toda a insatisfação social represada agora estourar em seu governo, sob pressão nas ruas de um bolsonarismo revanchista e de um identitarismo que, insaciável em sua fome de cargos, que não será atendida pela predileção de Lula pelo centrismo fisiológico, se aliará novamente à extrema-direita para sabotar o governo, tal como em 2013.

Lula foi um líder sindical necessário e um bom presidente, nem de longe o melhor que já tivemos, mas sem dúvida tem seu lugar no Top 10. Mas o momento hoje exige outras lideranças, outras posturas, outras tendências, que, por ora, ainda são germinais e ainda levarão um tempo para se desenvolverem e poderem redefinir os rumos do país em outras bases que não as do atual regime político, que faliu e nada mais pode proporcionar a não ser miséria e devastação para o país.

A solução para o Brasil, de médio e longo prazos, será construída a partir apenas de ruínas, da absoluta terra arrasada, de uma situação muito diferente da que Lula vivenciou enquanto construía sua liderança política.

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