Uma carta de Vargas à filha no exílio em São Borja

Por Getúlio Dornelles Vargas.

Alzira;

Aqui estou, no silêncio e no isolamento, comemorando meu melancólico 3 de outubro, iniciado há dezesseis anos, num período ruidoso de lutas e de esperanças.

Admito que tenha praticado erros. Mas suponho que entre esses não está incluído o propósito de fazer, pacificamente, uma revolução social.

Procurei amparar os humildes, os pobres, os desprotegidos. Por isso reuniram-se contra mim os poderosos, os interesses criados, a necessidade de voltar a um regime de privilégios, de negociatas e de monopólios particularistas, sob o pretexto de restabelecer a democracia. A democracia era isso mesmo.

Eu saí do governo e estou ainda numa encruzilhada, onde se apresentam três rumos diferentes. Um é o de abandonar qualquer espécie de atividade política, recolhendo-me ao silêncio, não ser motivo de alarmes, receios e perturbações. Este seria para mim o mais cômodo, o que me permitiria viver em paz, ficando longe dos ruídos do mundo.

Outro seria adaptar-me ao ambiente, conciliar-me com os interesses criados, não criticar, não fazer reparos, achar tudo bom. Para quê?
Para esperar por melhores dias? Valeria a pena o sacrifício, ante um futuro incerto?

Outro, finalmente, seria enfrentar a luta com disposição, com energia, contra todos os interesses, a felonia, o poder, a violência, o dinheiro! Seria uma luta dura. Para quê? Pela satisfação do dever cumprido? Terei mesmo esse dever? Serei eu compreendido? Não atribuirão tal atitude a motivos menos nobres?

Eis, minha filha, o que fui pensando e transmitindo ao papel nesta melancólica tarde de 3 de outubro.

Que pensas?

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