Vargas e a política pragmática em relação aos EUA

Por Felipe Quintas.

Pouca gente presta atenção no fato de que foi Getúlio Vargas, no Estado Novo, quem consolidou e sistematizou a aliança geopolítica do Brasil com os EUA, e desde antes do Brasil aderir aos Aliados na II Guerra, o que também só ocorreu após os EUA entrarem no conflito. A própria filha do Getúlio, a Alzira Vargas, participou ativamente dessa sistematização do alinhamento brasileiro aos EUA, como ela deixa bem claro em seu livro “Getúlio Vargas: meu pai”.

O próprio Estado Novo, aliás, só aconteceu porque foi apoiado pelos EUA para reprimir, ao mesmo tempo, o fascismo e o comunismo, bem como afastar o Brasil da Inglaterra pela suspensão da dívida externa. Nunca houve aproximação do Estado Novo com o fascismo, pelo contrário, o Brasil chegou a expulsar o embaixador alemão em 1938.

Depois da guerra, o o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, de 1947 (Dutra), e o Acordo Militar Brasil-EUA, de 1952 (também Getúlio) formalizariam ainda mais a adesão do Brasil aos EUA. O que ocorreu em 1964 foi o desdobramento e a continuação das diretrizes gerais da política externa brasileira desde Getúlio.

Portanto, é um erro histórico usar Getúlio como símbolo da “resistência ao imperialismo ianque”. Mas é um erro ainda maior achar que, no mundo de hoje, absolutamente diferente do que era nos tempos de Getúlio, manter o alinhamento aos EUA naqueles termos seria continuar a política externa soberana.

Naqueles tempos, a adesão do Brasil aos EUA foi a solução que melhor nos convinha para avançarmos nosso desenvolvimento, nos tornarmos a 1ª potência sul-americana e afastarmos o fascismo e o comunismo, que eram muito mais imperialistas que os EUA e defendiam abertamente a fragmentação do Brasil em estados étnicos, vide os nazistas se infiltrando nas colônias germânicas e nas tribos indígenas brasileiras para desestabilizar e fragmentar o Brasil e a URSS defendendo exatamente o mesmo na Primeira Conferência Comunista Latino-americana ocorrida em Buenos Aires em 1929.

Para as circunstâncias do entreguerras e da Guerra Fria, o Brasil fez um ótimo uso da sua aliança com os EUA e ganhou com ele muito mais do que poderia ganhar com o Eixo ou com a URSS. Os integralistas e os comunistas que esperneiem, mas eles não tinham nada melhor a oferecer. No caso da esquerda, a “guerra híbrida” dos comunistas e filocomunistas contra o “imperialismo ianque” mais serviu para atiçar as forças mais imperialistas dos EUA contra o Brasil do que para de fato emancipar nosso país. Getúlio e Jango não caíram nessa, e os militares que entraram em 64 trabalharam muito bem para impedir que a Operação Brother Sam se efetivasse.

Hoje em dia, no contexto de uma ordem mundial cada vez mais multipolar, com a emergência de potências regionais, o Brasil só tem a perder se mantiver um alinhamento unilateral com os EUA, que nem de longe têm hoje a importância que tinham naquela época e, justamente por isso, estão mais mesquinhos e egoístas.

O imperativo da soberania nacional, que nos orientou no século passado para a aliança com os EUA, nos orienta, hoje, para uma inserção mais diversificada no mundo, mais próxima dos países BRICS e do Oriente Médio e mais atuante no Atlântico Sul e na América do Sul no sentido do Pacífico, como o regime militar começou a fazer e todos os presidentes desde então, exceto o Bolsonaro, seguiram.

Isso não quer dizer que devamos hostilizar os EUA. Não ganharíamos nada com isso, e nem teríamos o apoio das potências emergentes, como China, Rússia e Índia, que mantêm vários modos de relação com os EUA dentro das suas estratégias nacionais. Precisamos ser pragmáticos e ter em vista o interesse nacional, sempre. Nesse ponto, não tenho restrição ao conjunto da Nova República, cuja política externa, exceto pela aberração olavista do governo Bolsonaro, foi exemplar.

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