Observações sobre as manifestações do dia 7 de setembro

Por Felipe Quintas.

1 – Reitero meu inconformismo com a inédita e indevida apropriação politiqueira do 7 de Setembro, que é dia do Brasil e não de Bolsonaro.

2 – Não foi hoje que o “górpi” foi dado e a esquerda se retirado do país para brincar de perseguida política em Paris, dar palestras e publicar livrinhos sobre “a dor do oprimido” e daqui uns anos descolar umas indenizações milionárias. A crise do emprego acabou até com o de exilado profissional, muito concorrido nos anos 1960 e 70.

3- Tinha gente pra car*lho nas manifestações, muito mais do que os números oficiais, apesar de ninguém ali estar vivendo melhor, exceto os aspones. O que mostra como o fenômeno do bolsonarismo, como todo fenômeno político de fato, inclusive o petismo, vai muito além de “bem estar econômico” e, em larga medida, independe dele.

4 – Lula vai precisar puxar para a rua um número pelo menos equivalente de pessoas para justificar sua liderança absoluta nas pesquisas de opinião. Não seria nem para salvar a reputação dele, que não anda alta nem entre seus eleitores, mas a dos institutos de pesquisa e da própria urna, que estão lutando em cima do barquinho de lata do sítio de Atibaia para não se afogarem na enxurrada de questionamentos que o bolsonarismo inoculou na população.

5 – Uma parte importante da oposição ao Bolsonaro, sobretudo a ligada à falida, elitista e monstruosa “terceira via” (Guedes + Djamila), sentiu o baque e agora defende abertamente o impeachment. Se fosse mais inteligente, esperaria mais tempo até a dura realidade da carestia e da escassez, que só está começando, começar a vitaminar o anti-bolsonarismo nas profundezas da sociedade. Mas, se fosse mais inteligente, não acharia que a solução para o Brasil é Doria + Meirelles e que o que está acabando com a economia do país são as bravatas do Bolsonaro e não o anarco-capitalismo do Guedes e do Campos Neto.

6 – Ainda é cedo para dizer se Bolsonaro se isolou ou não. Tudo em Brasília é perdoável e negociável. Não existe pecado em Brasília, lá não é só a mão que é leve, a consciência também.

7 – Contudo, é provável que algumas cabeças bolsonaristas rodem nos próximos dias como sinal para avançar mais rodadas de conversas subterrâneas. Mas é a função dessa gente na engrenagem. A vocação consciente do militante é ser bucha de canhão. Ele acha bonito ser mártir. Vai entender.

8 – A composição social predominante, quase absoluta, das manifestações era de classe média, da baixa à alta e vice-versa. Não surpreende, pois esse setor social, que não é inexpressivo, foi triturado durante TODA a Nova República, sendo sobrecarregado de impostos e vendo seus filhos e netos impossibilitados de manter um padrão material e cultural equivalente, muito menos de ascender socialmente, como era comum nas décadas anteriores. Ainda por cima foi e é escarnecido pelo PT, que o chamava de “elite branca”, e pelo identitarismo, que diuturnamente o ataca. Claro que dele viria a maior rejeição às instituições e aos atores ditos democráticos da Nova República, sendo o bolsonarismo apenas uma das expressões dessa insatisfação.

9 – A histeria da grande mídia é um espetáculo à parte. Eu sei de onde os bolsonaristas vieram e do que se alimentam, mas não posso dizer o mesmo de jornalista que acha que levantar um cartaz contra o passaporte vacinal é “antidemocrático”. Deve ser falta de cascudo na infância, sei lá.

10 – Gostaria de saber como fica a narrativa de que a Dilma sofreu “golpe” se, agora, os mesmos que a declamam estão pedindo ao Alexandre de Moraes, nomeado pelo golpista Temer, para defender a democracia. Ela não tinha acabado em 2016 e acabado novamente em 2018 sem ter voltado? Como estaria prestes a acabar agora se não tinha voltado com o Bolsonaro? A menos que se tenha desenvolvido uma versão da Teoria da Relatividade para a democracia, uma democracia quântica, por certo.

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