O 7 de Setembro de Bolsonaro

O que vimos neste 7 de setembro, 199o aniversário da Independência, foi uma multidão tomando as ruas e a Esplanada dos Ministérios. Seja com manifestantes engajados, que foram de livre e espontânea vontade, ou com manifestantes pagos, com direito a ônibus fretados para Brasília. Se foi ou não gigante, como prometiam os apoiadores do presidente, não podemos dizer, mas Bolsonaro levou a Brasília, à Avenida Paulista, à Praia de Copacabana e a outros locais uma leva de seguidores apaixonados.

Nos discursos em Brasília e em São Paulo, Bolsonaro falou que não reconhece mais a autoridade do Ministro Alexandre de Moraes do STF e que vai convocar o Conselho da República, além de defender os presos preventivamente por Moraes como “presos políticos”. O Conselho da República tem previsão constitucional no Art. 89 e tem como atribuições, em momentos de crise, convocado pelo Presidente da República pronunciar um parecer sobre os casos de intervenção federal, estado de sítio ou defesa.

Mas parece que Bolsonaro, levado pela emoção, acabou confundindo Conselho da República com o Conselho de Ministros, do qual fazem parte, além do presidente e do vice, os ministros de todas as pastas. Ao que parece, o presidente da Câmara, Arthur Lira, e do STF, Luiz Fux, foram convidados, mas declinaram da participação. Conforme disse uma vez o vice Hamilton Mourão, o presidente desenvolveu “mais o físico do que o intelectual”.

Com isso, não se quer menosprezar o fato de Bolsonaro ter colocado, provavelmente, milhões nas ruas. Mas lembremos que em 1984, a Campanha das Diretas levou um milhão de pessoas que lotaram toda a Avenida Presidente Vargas em um comício que reuniu lideranças como Leonel Brizola, Tancredo Neves, Ulisses Guimarães e Lula, dentre outros. No final, a Emenda Dante de Oliveira foi derrotada e as eleições ocorreram de modo indireto no ano seguinte. Em termos práticos, Tancredo, velha raposa política mineira, usou a ocasião para viabilizar para si a candidatura de oposição para derrotar o candidato isolado do fim do Regime Militar, Paulo Maluf.

Em um gesto ousado, João Goulart, na condição de presidente, convocou um comício na Central do Brasil e defronte ao Palácio Duque de Caxias, sede do Ministério do Exército, em uma noite de março de 1964, levando cerca de cem mil pessoas, prometendo avançar com as Reformas de Base. Três semanas depois, não estava mais na presidência.

O paralelo mais próximo que podemos fazer, todavia, é com as manifestações de 2015 e 16 pelo impeachment de Dilma Rousseff. Estas superaram as de hoje e reuniram uma fauna política de apoiadores que incluía, além de Bolsonaro, membros do MBL, políticos tucanos e emedebistas, com interlocução com o então vice Michel Temer. Hoje, nenhum desses manifestou apoio ao presidente.

A postura de hoje foi condizente com a estratégia – se é que há alguma – de fidelizar sua base mais radicalizada mesmo que em detrimento de apoiadores mais moderados e do aumento da rejeição entre os opositores. Assim, as manifestações da manhã e da tarde foram seguidas de panelaços no início da noite em várias capitais.

Por outro lado, parte considerável da oposição mais à esquerda, gosta de se referir a Bolsonaro como fantoche dos militares (do “Partido Militar”) e do “grande capital”, sendo que não houve menção aos militares, nos discursos inflamados do presidente. E a crise institucional que segue ainda mais intensa tem como efeito a deterioração dos indicadores econômicos, como o dólar e o ambiente para investimentos. O tom de revolta, presente em toda a cobertura da Globo das manifestações, é indicativo disso.

O que podemos pedir é que a festa de 200 anos ocorra em outro ambiente.

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