A Nova Esquerda, radical contra o povo

Por Felipe Quintas.

Diferentemente da direita, que, antes do bolsonarismo, sempre cultivou a autoimagem de ser moderada e transigente (ainda que muitas vezes fosse o contrário disso), a esquerda sempre referenciou sua identidade pelos seus elementos mais radicais.

Daí que, por muito tempo, propostas reformistas bastante avançadas, e que hoje seriam consideradas até “extremistas”, como a CLT, a Lei da Usura e o Estatuto do Trabalhador Rural, eram rotuladas de “conservadoras”, pois a “verdadeira esquerda” seria revolucionária e não faria menos do que nacionalizar todas as transnacionais do país e abolir a grande propriedade privada, sem qualquer diferenciação.

Não era raro, inclusive, que fosse a direita quem buscasse suas referências nos Estados de bem estar social estrangeiros – como Castello Branco ao criar o INPS com base no ATP sueco e Costa e Silva ao dizer que a social-democracia norueguesa era o seu modelo de desenvolvimento – enquanto, para a esquerda, qualquer coisa menos que as revoluções russa e cubana seria “reacionarismo” ou algo tendente a isso.

Porém, nos dias de hoje, tamanho é o comprometimento da esquerda com o grande capital, sobretudo pelo identitarismo, que não há mais espaço para o campo de esquerda manter seu radicalismo contra Wall Street, a Coca-Cola, a grande indústria farmacêutica etc. Para resguardar a postura radical e não descaracterizar a sua aparência, ela, então, reorienta seu radicalismo contra, adivinhem quem, o próprio povo.

Surgem, então, verdadeiras aberrações, jamais antes cogitadas, como dizer que a mestiçagem brasileira é resultado do estupro, que o Brasil é uma “terra indígena” e que os portugueses e seus descendentes são “invasores”, que os descendentes brasileiros de italianos, alemães, espanhóis, deveriam se envergonhar por a imigração europeia supostamente ter existido para “embranquecer o país” e desfazer a “nação negra” que seria e deve ser o Brasil e que os imigrantes teriam sido privilegiados com terras mil.

Enquanto até pouco tempo atrás era praticamente consensual entre a esquerda que a imigração europeia acelerou a transição do trabalho escravo para o trabalho livre e contribuiu para a formação da “consciência de classe” – quem de esquerda ou com um passado de esquerda nunca se emocionou com as memórias das greves operárias de 1917 capitaneadas por anarquistas italianos e espanhóis? – hoje a imigração virou um verdadeiro anátema, assim como o bandeirantismo, o Descobrimento do Brasil e todos os demais processos formadores da nacionalidade.

Dessa forma, para a nova esquerda, todos os problemas do país são por causa do povo e dos seus ascendentes. Se o custo de vida está alto, a culpa não é do laissez-faire neoliberal e financista, mas do Pedro Álvares Cabral, do Borba Gato e do Seu Giuseppe que chegou no Brasil em 1880 e trabalhou em regime de semi-escravidão num cafezal paulista.

Ninguém escapa da sanha acusatória, nem mesmo os negros, acusados de violar a “terra indígena” que seria o Brasil, e os indígenas, acusados de macular a “nação negra” que o Brasil seria e deve ser.

Não é só desorientação. É mau-caratismo também, e principalmente.

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