Transcapitalismo: última temporada da revolução, com a ajuda da esquerda poodle

Por Juan Manuel de Prada

Em alguma ocasião anterior, lembramos aquele diagnóstico visionário que (o cineasta italiano Pier Paolo) Pasolini fez no início dos anos 1970: “A revolução neocapitalista astutamente se apresenta como oposição, na companhia de forças mundiais que se movem para a esquerda”. Essa esquerda lacaia da plutocracia – que batizamos de ‘esquerda poodle’ – encontrou na miscelânea de ideologias identitárias um instrumento maravilhoso a serviço da revolução neocapitalista, desativando completamente a velha ‘luta de classes’, atomizando-a em um enxame de lutas egoístas e setoriais que deixaram as vítimas do capitalismo mais desconectadas e sozinhas do que nunca, mais desamparadas e solipsistas do que nunca, mais absortas do que nunca no umbigo e na virilha.

A revolução neocapitalista precisa transformar os seres humanos em consumidores bulímicos das mais variadas mercadorias, estéreis para qualquer projeto comum, para qualquer missão compartilhada, para qualquer compromisso duradouro. Mas o que você pode fazer com esses consumidores “frustrados” que não podem pagar casas luxuosas, carros brilhantes, turismo de luxo? Devemos assegurar-lhes um fluxo de mercadorias bizarras que os mantém enganados, enquanto perdem direitos trabalhistas, enquanto não podem constituir família, enquanto vivem em uma choupana imunda. Assim, a revolução neocapitalista oferece a esses consumidores “frustrados” televisão lixo, pornografia gratuita, turismo sexual bruto (tinderizado) e um bazar infinito de direitos de voar que é coroado com a possibilidade de transformar seu próprio corpo em um objeto de consumo. Assim, a revolução neo-capitalista engole todas as realidades humanas em seu voraz processo de consumo.

O transcapitalismo, a última estação da revolução neocapitalista, submete a natureza humana a um processo de re-biologização (real ou figurativa, dependendo se ela fatia galos ou reatribui gêneros); depois, para impor seu desígnio consumista, precisa destruir sem medida, renovar sem descanso, até transformar nossos próprios corpos em bazares incessantes. A revolução neocapitalista não pode permitir que nada permaneça, nada se resolva, nada se enraíze ou se vincule; precisa nos mergulhar em uma tormenta biológico-mercantil cada vez mais acelerada, onde nosso próprio corpo passa por um constante processo de renovação, de tal forma que a própria natureza humana se junte ao carrossel do consumismo bulímico ao qual antes havia agregado todas as mercadorias, juntando-se a esse ambiente de transitoriedade efêmera que impede laços e não deixa vestígios ou memória.

Nossa vida imersa em um redemoinho de entropia antropológica, devorada pelos gigantescos monstros do mercado, em um ciclo de voracidade ininterrupta que engole toda a solidez das coisas humanas. Para que, onde quer que o ser humano seja consumido, ele nunca se consuma, nunca se feche por meio de laços comunitários. O transcapitalismo quer indivíduos convertidos em egos consumidores de sua própria identidade, naufragados em uma salada de gênero, que “turistas” seu próprio corpo, até se tornarem mercadoria atomizada que renuncia a todos os laços, mercadorias não relacionadas, sozinhas, solos e sóis em os infinitos quadrados desenhados pelo transcapitalismo (cis, queer, trans, binary, terf, etc.), mercadoria desarticulada que vagueia desordenada pelo parque temático da selva do consumismo antropológico.

Assim, o transcapitalismo atinge o ponto ômega de sua revolução. Assim, o ser humano passa a se consumir, na mais pura, bárbara e ininterrupta festa do canibalismo narcisista. Assim, o transcapitalismo atinge uma dissociação autenticamente primitiva: uma orgia gigantesca e bulímica de consumismo que material e espiritualmente devora, ao longo dos mares e selvas, junto com carros e casas, a própria natureza humana, negando a realidade corporal e transformando-a em um amontoado de ‘ identidades consumidas. Nem é preciso dizer que, nesse processo de consumo voraz da própria natureza humana, a primeira vítima é a mulher, porque ela é a grande tecedora de laços fecundos. É por isso que o transcapitalismo apaga a realidade biológica das mulheres e a transforma em uma identidade ‘sentida’ pelos homens; É por isso que ele coloca inimizade eterna entre a descendência da mulher e a sua própria. Tudo isso, é claro, com a ajuda de seu buldogue favorito, a esquerda poodle.

Publicado em KontraInfo em 18.07.2021. Tradução JORNAL PURO SANGUE.

1 comentário em “Transcapitalismo: última temporada da revolução, com a ajuda da esquerda poodle

  1. Leio este texto no mesmo dia em que tomo conhecimento de que a conta de luz na Espanha é atualmente a mais cara da UE. Um país governado pela ex-querda. Chegou a hora de voltarmos nosso olhar para a Eurásia.

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