O desvio de voo da Ryanair na Bielorrússia pode abrir a Caixa de Pandora

Por Andrew Korybko.

A Bielorrússia ordenou que um caça a jato para escoltasse um vôo da companhia aérea irlandesa Ryanair para Minsk, em trânsito em seu espaço aéreo a caminho em direção a Vilnius, Lituânia, no domingo, em resposta a uma ameaça de bomba a bordo. Ao desembarcar na capital bielorrusa, um membro extremista do movimento da Revolução Colorida bielorrussa, Roman Protasevich, foi preso pelas autoridades. O vôo foi então autorizado a continuar para Vilnius, depois que nenhuma bomba foi encontrada a bordo. A reação ocidental foi rápida e um número crescente de países fez fila para condenar a Bielorrússia pelo que eles alegaram ser uma operação de inteligência com o objetivo de prender Protasevich, mas que supostamente poderia ter colocado vidas inocentes em risco. Minsk ignorou as acusações enquanto Moscou chamava o Ocidente por sua hipocrisia.

Existem vários ângulos para analisar esse desenvolvimento. A primeira é aceitar a palavra das autoridades bielorrussas sobre o que aconteceu, de que foi mera coincidência alguém lhes ter informado de uma bomba a bordo do mesmo voo em que Protasevich estava a ocupar o espaço aéreo da Bielorrússia. A segunda é para aplaudir o presidente Lukashenko por uma operação inteligente por meio da qual seu governo foi capaz de levar à justiça um membro extremista do movimento Revolução Colorida do país. A terceira, no entanto, é condená-lo por supostamente colocar vidas em risco e possivelmente violar os regulamentos internacionais da aviação ao fingir uma ameaça de bomba para prender aquele extremista político.

De qualquer forma, o movimento pode ter mudado o jogo, já que poderia abrir a Caixa de Pandora, estabelecendo o precedente para outros países eventualmente seguir seus passos, por razões políticas. Por exemplo, existem indivíduos russos que estão sob sanções dos Estados Unidos, e estes podem realizar uma operação de inteligência semelhante em relação a uma suposta ameaça de bomba falsa, a fim de prendê-los da mesma forma que Protasevich foi preso. Os EUA são conhecidos por sua crença na chamada “jurisdição extraterritorial”, de modo que poderiam, pelo menos em teoria, ter seus agentes esperando em um aeroporto europeu para prender quem quer que seja o alvo, desde que tenham a permissão dos anfitriões. Ou eles também podem fazer isso sem informá-los com antecedência.

Tecnicamente, foram os próprios Estados Unidos que primeiro abriram esta Caixa de Pandora durante seus esforços anteriores para capturar Edward Snowden, tempos atrás. O avião do ex-presidente boliviano Evo Morales foi desviado e forçado a pousar na Áustria em meio a suspeitas de que o vazador de informações americano estivesse a bordo. Descobriu-se que não, mas o incidente mostrou até onde os EUA irão se tiverem vontade política para realizar tais operações. Com isso em mente, Lukashenko estava, em certo sentido, apenas dando aos Estados Unidos um gostinho de seu próprio remédio, ao organizar a operação de domingo para prender um ativista pela mudança de regime. No entanto, todos sabem que os EUA regularmente implementam padrões duplos, daí o motivo pela qual a autoridade da União Europeia acabou de banir as companhias aéreas bielorrussas no bloco.

Ao contrário da época do incidente Snowden-Morales, o mundo está hoje inquestionavelmente no meio de uma Nova Guerra Fria. Isso significa que pode haver mais vontade política para os EUA e seus aliados repetirem o que Lukashenko acabou de fazer, que para lembrar ao leitor era basicamente no que os EUA foram pioneiros. Qualquer indivíduo sob sanções unilaterais, voando sobre o espaço aéreo de um país amigo dos Estados Unidos pode, portanto, correr o risco de que a mesma coisa aconteça com ele. Isso reduzirá muito sua liberdade de movimento pelo mundo e talvez, em alguns casos, basicamente os prenda em sua terra natal pelo resto de suas vidas, caso não se sintam mais seguros em viajar.

Claro, nada disso também pode acontecer, mas é altamente improvável que os EUA não explorem o incidente de domingo, pois têm um padrão claro de acusar os outros de fazer exatamente do que fazem primeiro, ou fingir que a aplicação de qualquer tática ou estratégia foi pela primeira vez empregada, e, portanto, justificar que façam o mesmo a partir de então. Para facilitar a possível aceitação do público deste cenário, uma campanha intensificada de guerra de informação pode acontecer em breve, talvez até acusando a Rússia de estar de alguma forma envolvida no incidente de domingo. Obviamente não esteve, mas os fatos nunca atrapalharam nenhuma das outras teorias de conspiração dos Estados Unidos sobre a Grande Potência eurasiana, então provavelmente não serão um obstáculo para esta também.

Publicado em One World em 25.05.2021.

Tradução JORNAL PURO SANGUE.

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