A falácia do “fim do neoliberalismo” e a oposição “harvardiana”

Em meio ao clima de consternação diante de mais de um ano de pandemia da Covid-19, surge um sentimento de euforia, em alguns círculos, a respeito do “fim do neoliberalismo”.

De fato, o governo Biden, que assumiu em janeiro deste ano, bolou um audacioso plano assistencial e de investimentos em infraestrutura que deve ser colocado em prática com a ajuda de um Legislativo que lhe é favorável, já que seu Partido Democrata controla as duas casas em Washington. O “Plano Biden” implicaria em gastos de mais de US$ 2 trilhões – uma quantia espantosa. Teria como contrapartida, para minimizar o déficit público aumento de impostos sobre as grandes corporações e seus ganhos patrimoniais.

Porém, na verdade, não significaria nenhuma grande ruptura, pois os Estados Unidos há muito “gastam mais do que arrecadam”, pelo menos desde o marco oficial do Neoliberalismo por lá, ou seja, desde o Governo Ronald Reagan (1981-1989), com um breve interregno no final do Governo Clinton. Já no início dos anos 1980 vigorava o padrão-dólar, ou seja, do dólar sem lastro algum, cujo limite para sua emissão é a necessidade e conveniência dos demais países em acumularem os dólares abundantes no sistema financeiro internacional nas suas reservas internacionais.

Reservas em dólares que vem se acumulando de forma acentuada desde a Crise de 2008, desde quando o Federal Reserve dos EUA passou a inflar o sistema financeiro com dólares de forma impressionante, ao passo que os “mercados emergentes” passaram a acumular de forma também sem precedentes reservas cambiais na mesma moeda. Reservas essas, que, por sua vez, são reciclados na compra de títulos do Tesouro dos EUA, com juros muito baixos. O Brasil está incluído nessa.

Ou seja, ao contrário do que falava o “Papa do Neoliberalismo”, Milton Friedman, guru de Paulo Guedes e de todos os “caçadores de sardinhas”, existe, sim, almoço grátis. E tem gente que está se empanturrando nele há tempos.

Assim, longe grandes rupturas, as medidas que Biden acena, em políticas de renda para famílias com renda anual inferior a US$ 80 mil e de apoio financeiro para pequenos negócios, serviriam para recuperar a demanda deprimida devido ao grande baque de 2020 causado pela pandemia. Já a recuperação da infraestrutura caminharia na mesma linha dos projetos de Donald Trump, com prioridade para gastos com empresas e fornecedores estadunidense, até mesmo no setor da “energia verde” e estímulo a veículos elétricos. Nada mais do que uma forma de nacionalismo econômico.

O objetivo seria debelar a crise econômica e tentar fazer frente aos ganhos da economia chinesa. Mas, muito provavelmente, os EUA continuarão a depender dos recursos de outros países, da aceitação de seu dólar como reserva sem dar nada em troca. Pior, farão isso recuperando a política de Obama, de quem Biden foi vice, de confronto com a Rússia, tendo em vista a atual tensão na Ucrânia, com navios de guerra indo e vindo no Mar Negro. No plano estratégico e diplomático, nada é diferente dos governos anteriores, a não ser indícios de uma política externa mais agressiva do que de seu antecessor, tão difamado nesses “círculos” que mencionamos no início do texto.

Estamos falando da “Mídia-OTAN” (El País, BBC Brasil, DW etc) que procura nas redes sociais como Instagram, Facebook, Twitter etc. seu espaço, à revelia do PIG (Globo, Folha de SP, Veja etc), que anda meio mal das pernas. Ambos, contudo, vem se mostrando eufóricos com o Governo Biden, na esteira do Black Lives Matter e do ecologismo de butique. Ambos conseguem pautar as lideranças de oposição, que correm para se apresentar em um seminário virtual da Universidade de Harvard, com patrocínio do Banco BTG (que não tem o menor motivo para ser de oposição, tendo em vista seu crescimento nos últimos dois anos) e de Jorge Paulo Lehman.

Este último não quer apenas se limitar aos bancos de investimento, ao controle do mercado brasileiro de cervejas(InBev), de sanduíches (Burger King) e de varejo em geral (Americanas), mas enfim em produzir políticos. Ou “formar capital humano”, de acordo com o jargão moderno, utilizado oportunisticamente.

Assim estiveram lá no Seminário de Harvard todos eles: Haddad, João Dória, Eduardo Leite, Ciro Gomes e Luciano Huck. Este último, cria ridícula de Fernando Henrique Cardoso esteve lá para defender mais Uber e empreendedorismo em bolo de pote como saída para crise no Brasil. Todos eles mostraram alinhamento com a agenda de Biden, como se este fosse um novo Franklin Roosevelt, de posse de um “new deal” “inclusivo” e “verde”.

No caso de Ciro e Haddad, é capaz de que os dois briguem para ver quem vai ser o porta-voz do Progressismo do Partido Democrata, apesar de o ex-prefeito de São Paulo já estar na frente, ao se colocar como representante da Internacional Progressista de Bernie Sanders. Progressismo esse que pode ser verde, estar colado na causa do BLM e dos LGBTQ, mas ainda é lastreado em dólar.

Progressismo esse que não larga esta moeda em prol de novos arranjos que vem sendo liderados por Rússia e China, no sentido de driblar as sanções impostas pelos EUA e União Europeia para criar um sistema de pagamentos e de moedas virtuais fora do sistema do dólar. Isso fora do Sistema SWIFT de compensações bancárias internacionais. O que abre uma janela de oportunidade para demais países para a escravização do dólar, acumulado em reservas mal remuneradas, podendo aplicar recursos, aí sim, na construção de infraestrutura e industrialização de suas economias.

Nossas “lideranças da oposição” apresentaram suas credenciais para Harvard de forma polida, mas parecem esquecer que o atual presidente fez uma campanha sem muito dinheiro, sem uma grande máquina partidária, mas visitando batalhões de PM, Corpos de Bombeiros e outras categorias profissionais menos cotadas, pelo Brasil a dentro.

Harvard pode ter prestígio e até dinheiro, mas não tem voto.

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