O dilema de um governo na defensiva

Em final de fevereiro último, Bolsonaro resolveu contrariar sua equipe econômica e decidiu afastar da presidência da Petrobras Roberto Castello Branco. Diante das pressões dos caminhoneiros, taxistas e outras categorias similares, as quais procura agradar, o presidente decidiu romper com a política de paridade de preços internacionais e de importação de combustíveis de Castello Branco, que chegou à presidência da estatal depois de ser nomeado por Dilma Rousseff para o Conselho de Administração. Antes de sair, no último dia 20 de março, ordenou sucessivos aumentos nos combustíveis, fazendo a gasolina chegar a mais de R$ 6,00 ao consumidor.

Como vem fazendo diante de focos de crise em seu ministério ou em cargos importantes, Bolsonaro nomeou o General Joaquim Silva e Luna para a presidência da Petrobras, que antes ocupava a presidência da Itaipu Binacional.

Ao mesmo tempo, Bolsonaro também se indispunha com a política do presidente do Banco do Brasil, André Brandão, de fechar agências e realizar o “desinvestimento” do banco, concretizada na venda de carteiras de investimento para bancos estrangeiros. Cabe lembrar que o BB é grande financiador do setor agrário no Brasil, que vem segurando a balança comercial brasileiro nos tempos de alta retração econômica diante da pandemia do Covid-19. Assim, no último dia 18, Brandão renunciou ao cargo, sendo anunciado pelo BB que será substituído por Fausto Ribeiro, funcionário de carreira do banco – ao contrário de Brandão, que vem do setor privado.

“Coincidentemente”, no dia 17 de março, deu-se a reunião do Conselho de Política Monetária (COPOM) do Banco Central, que aumentou em quase 40% da taxa básica de juros, revertendo a medida que vinha sendo desde 2015, quando eclodiu a depressão econômica brasileira, “da qual ainda não saímos”, de redução das taxas de juros. O argumento em prol da medida é a “deterioração fiscal”, que vem desde aquela época, mas que, no entanto, não impediu a queda nas taxas de juros, que estava na faixa dos 14% ao ano em 2015 para 2% ao ano em 2020. Entre os “especialistas” de plantão da mídia, ou seja, os economistas que prestam consultoria para o mercado financeiro, fala-se em taxas de juros próximas a 6% ao final do ano. Isso tudo com desemprego recorde, na perspectiva de se chegar a um auxílio emergencial R$ 370,00, inferior aos R$ 600,00 ou R$1.200,00 que se pagou no ano passado.

Aqui vamos lembrar que finalmente, em fevereiro último, já com a Câmara dos Deputados comandada por Arthur Lira, o governo conseguiu aprovar a autonomia do Banco Central, medida que garante mandatos fixos para o Presidente do Banco Central e seus diretores. Agora aqueles que definem a política monetária não poderão ser mudados pelo próximo presidente da República em seus três primeiros anos de mandato, de acordo com a letra da nova lei. Uma vitória da política econômica, saudada até por Eduardo Bolsonaro no Twitter.

O mesmo COPOM que anteviu as mudanças de curso propostas por Bolsonaro, contrariando sua equipe econômica, e resolveu agir antecipadamente, de forma a desaquecer a economia, contrariando as mudanças que preveem maior investimento tanto pela Petrobras, como pelo Banco do Brasil.

Em meio a isso, crescem as acusações de “genocídio” atribuídas a Bolsonaro, com pressões para que se adote políticas de confinamento radical (lockdown) em todo o país, diante do aumento de número de casos e mortes pela Covid-19. Culpa-se o presidente pelo caos na saúde, decorrente no atraso da vacinação, mas o número de casos disparou até mesmo no Chile, país que tem a melhor cobertura mundial da vacinação, em termos relativos, atrás apenas de Israel e dos Emirados Árabes.

Diante desse cenário, a mídia alinha o discurso a alguns políticos como Ciro Gomes – ou seria o contrário? – de apostar na demonização do presidente, para minar a capacidade do Executivo, de forma a desidratá-lo ao máximo até o final de 2022, já que o impeachment não está no horizonte – pelo menos, por enquanto. Assim, nesta semana, um manifesto de banqueiros se somou, denunciando a incapacidade do governo em realizar uma campanha de vacinação eficiente.

Curiosamente, esse mesmo manifesto não rechaça a medida do governo brasileiro, amparada pelos ministérios da Economia e das Relações Exteriores, de não pressionar pela quebra das patentes farmacêuticas das vacinas desenvolvidas contra a Covid-19, em benefício de uma legislação de direito de propriedade intelectual que beneficia os grandes conglomerados farmacêuticos em detrimento dos interesses dos países em desenvolvimento.

Como dizem em tom jocoso os militantes bolsonaristas, para atacar a postura da “extrema imprensa” contra o presidente que defendem, “isso a Globo não mostra”. Ou se mostra, é no canto da página. Nos casos frequentes em que agenda econômica da grande mídia se alinha a da equipe econômica.

Ou seja, já no seu terceiro ano de mandato, pode-se constatar que hoje o governo se divide em uma ala ideológica, que começou com muita força política no início do mandato, e uma ala mais pragmática, que vem tentando buscar seu espaço diante dos percalços do processo político. A ala ideológica encastelada nos ministérios da Economia e das Relações Exteriores, principalmente, e uma ala pragmática que encontra apoio nos militares, no Ministério da Infraestrutura, chefiado por Tarcísio Gomes de Freitas, e no Ministério do Desenvolvimento Regional, sob a batuta de Rogério Marinho. A primeira ala ajudou Bolsonaro a se eleger, mas a segunda possibilita que ele governe. Constata-se isso após a manifestação de “unanimidade negativa” do Senado Federal a Ernesto Araújo, no dia 24 de março.

Os militantes governistas, rápidos em acusar o Legislativo, o Judiciário, os governadores e mesmo a mídia como sabotadores do governo – ainda que tenham razão em alguns casos – deveriam primeiro olhar para as próprias trincheiras, para saber quem está ajudando na briga, e quem está prejudicando.

1 comentário em “O dilema de um governo na defensiva

  1. Caro Rubem, foi uma vergonha de governo covarde, que tem seu marco máximo no pronunciamento do excelentíssimo na noite de quarta, choroso, desmoralizado, covarde.

    Não é covarde para entregar o banco central e para fazer bravatas, mas o é para se encolher diante das garras do centrão – o qual não joga em time perdedor, portanto um impeachment até pode acontecer – alguém tem que pagar o pato pelos 300 a 500 mil mortos.

    E enquanto isso temos uma elite ignorante, dividida entre new-left Abjeta, negrista, gayzista e oportunista de um lado; neo-empreendedores, donos de cabaré, vendedores de bolo no pote, uber e afins de outro.

    Enquanto o zuca médio, como Rubão falou no pão na chapa, não perceber o que é o capitalismo liberal, o povão enganado e tosco, deseducado, não vai escapar. O capitalismo é um sistema Podre por si mesmo desde o berço, nunca existiu idéia de capitalismo honesto de competidores para a produção um produto por preço mais baixos e blá, blá,blá(escola austríaca)

    Não, o capitalismo é uma imposição da classe dominante, uma forma desta classe permanecer no poder por meio da boa e velha Mais Valia, obtendo lucros por meio do esforço dos necessitados ao menos custo de produção e salários que for possível. Não existe moral, honra ou caráter no capitalismo apenas guerra de todos contra todos pelo maior lucro, com vencedores e “losers”(termo importado pela elite brazuca)

    Não existe empreendedor honesto no capitalismo liberal pois há a contradição total entre busca frenética pelo lucro, canibalização das pequenas empresas, depreciação do valor do salário e direitos trabalhistas inexistentes; sem a mão protetora do Estado a mediar o sistema resta apenas a Mão Invisível, enorme, grotesca, desumana sempre a procurar o rabo desprotegido do povo.

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