A derrubada de Evo Morales e a primeira guerra do lítio

Por Thierry Meyssan.

Recordem a derrubada do Presidente boliviano Evo Morales, nos fins de 2019. À época, a imprensa dominante clamava que ele havia transformado o seu país numa ditadura e que acabava de ser expulso pelo seu povo. A Organização dos Estados Americanos (OEA) publicava um relatório para certificar que as eleições tinham sido truncadas e que se assistia ao restabelecimento da democracia.

Entretanto o Presidente Morales, que temendo acabar como o Presidente chileno Salvador Allende, se refugiara no México, denunciava um Golpe de Estado organizado para apanhar as reservas de lítio do país. Mas não conseguindo identificar os mandantes, nada mais provocou do que sarcasmos no Ocidente. Apenas nós revelamos que a operação havia sido posta em prática por uma comunidade de croatas ustashas presente no país, em Santa Cruz, desde o fim da Segunda Guerra Mundial; uma rede stay-behind da OTAN [1].

Um ano mais tarde, o partido do Presidente Morales ganhou com larga maioria as novas eleições [2]. Não houve contestação e este pode triunfalmente regressar ao seu país [3]. A sua pretensa ditadura jamais tivera lugar, enquanto a de Jeanine Áñez acabava de ser derrubada pelas urnas.

O historiador Mark Curtis e o jornalista Matt Kennard tiveram acesso a documentos desclassificados do Foreign Office (Negócios Estrangeiros britânicos) que estudaram. Eles publicaram as conclusões no sítio Declassified UK, sediado na África do Sul, após a sua censura militar no Reino Unido [4].

Mark Curtis mostrou ao longo de todo o seu trabalho que a política do Reino Unido não havia sofrido qualquer mudança com a descolonização. Nós já citáramos o seu trabalho numa dezena de artigos da Rede Voltaire.

Revelava-se que a queda do Presidente Morales fora uma montagem do Foreign Office e de elementos da CIA que escapavam ao controle da Administração Trump. O seu objetivo era o de roubar o lítio existente no país, cobiçado pelo Reino Unido no contexto da transição energética.

A Administração Obama havia já, em 2009, tentado um Golpe de Estado que foi derrotado pelo Presidente Morales e que levara à expulsão de vários diplomatas e funcionários dos EUA. Contrariamente, aparentemente a Administração Trump deixou o campo livre aos neoconservadores na América Latina, mas sistematicamente impediu-os de levar os seus planos à prática.

O lítio entra na composição das baterias. Encontra-se principalmente em salmouras de desertos de sal em altitude, nas montanhas chilenas, argentinas e sobretudo bolivianas («o triângulo do lítio»), até mesmo no Tibete; são os «salares». Encontra-se também sob a forma sólida em certos minerais, extraídos de minas, nomeadamente australianas. O lítio é indispensável para a mudança de viaturas movidas a gasolina para veículos elétricos. Tornou-se, portanto, uma questão mais importante que o petróleo no contexto dos Acordos de Paris que são supostos combater o aquecimento climático.

Em Fevereiro de 2019, o Presidente Evo Morales autorizara uma empresa chinesa, TBEA Group, a explorar as principais reservas de lítio do seu país. O Reino Unido concebeu, pois, um plano para o roubar.

Evo Morales, índio aimara, tornou-se Presidente da Bolívia em 2006. Ele representava os produtores de coca; uma planta local indispensável à vida a grande altitude, mas igualmente uma potente droga proibida no mundo pelas ligas de virtude dos EUA. A sua eleição e seu governo marcaram o retorno dos índios ao Poder do qual haviam sido excluídos desde a colonização espanhola.

- Já em 2017-18, o Reino Unido enviara peritos à empresa nacional boliviana, Yacimientos de Litio Bolivianos (YLB), para avaliar as condições de exploração do lítio boliviano.
- Em 2019-20, Londres subvencionou um estudo para «otimizar a exploração e a produção do lítio boliviano utilizando a tecnologia britânica».
- Em Abril de 2019, a embaixada do Reino Unido em Buenos Aires organizou um seminário com representantes da Argentina, do Chile e da Bolívia, funcionários de empresas mineiras e de governos, para lhes apresentar as vantagens que teriam em usar a Bolsa de Metais de Londres. A Administração Morales fez-se aí representar por um dos seus ministros.
- Imediatamente após o Golpe de Estado, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) aprestou-se a financiar projetos britânicos.
- O Foreign Office havia contratado —muito antes do Golpe de Estado— uma empresa de Oxford, a Satellite Applications Catapult, a fim de mapear as reservas de lítio. Ela só foi paga pelo IADB após a derrubada do Presidente Morales.
- A Embaixada do Reino Unido em La Paz organizou, alguns meses mais tarde, um seminário para 300 agentes com o apoio da sociedade Watchman UK. Esta empresa é especializada no modo de associar as populações a projetos que violam os seus interesses, a fim de evitar a sua revolta.

Antes e depois do Golpe de Estado, a embaixada Britânica na Bolívia negligenciou a capital La Paz para se interessar mais especificamente pela região de Santa Cruz, aquela onde os croatas ustashas haviam legalmente tomado o Poder. Aí, ela multiplicou as iniciativas culturais e comerciais.

Para neutralizar os bancos bolivianos, a embaixada britânica em La Paz organizou, oito meses antes do Golpe de Estado, um seminário sobre segurança informática. Os diplomatas apresentaram a empresa DarkTrace (criada pelos Serviços Secretos do Interior britânicos), explicando que apenas os estabelecimentos bancários que a contratassem, para garantir a sua segurança, poderiam vir a trabalhar com a City.

Segundo Mark Curtis e Matthew Kennard, os Estados Unidos não participaram, por si mesmos, no complô, mas alguns funcionários deixaram a CIA para a preparar. Assim, a DarkTrace recrutou Marcus Fowler, um especialista em ciber-operações da CIA, e especialmente Alan Wade, antigo Chefe da Inteligência da Agência. A maior parte do pessoal da operação era britânico, entre o qual os responsáveis da Watchman UK, Christopher Goodwin-Hudson (antigo militar de carreira, depois Director de Segurança da Goldman-Sachs) e Gabriel Carter (membro do muito privado Special Forces Club de Knightsbridge, que se havia destacado no Afeganistão).

O historiador e o jornalista garantem igualmente que a embaixada britânica forneceu à Organização dos Estados Americanos os dados que lhe serviram para «provar» que o escrutínio havia sido truncado; relatório que foi desmontado pelos pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) [5] antes de o ser pelos Bolivianos, eles próprios, quando das eleições seguintes.

A atualidade dá razão ao trabalho de Mark Curtis. Assim, em três anos, desde o Golpe de Estado na Bolívia (2019), nós mostramos o papel de Londres na guerra do Iêmen (2020) [6] e na do Alto Karabakh (2020) [7].

O Reino Unido leva a cabo guerras curtas e operações secretas, se possível sem que a mídia releve a sua ação. Ele mesmo controla a percepção que se tem da sua presença por meio de uma infinidade de agências de notícias e de mídia subsidiadas em segredo. Ele cria condições de vida impossíveis para aqueles a quem as impõe. Utiliza-as para explorar o país em seu proveito. Além disso, pode fazer durar esta situação o maior tempo possível tendo a certeza de que as suas vítimas ainda irão a apelar a eles, única forma capaz de apaziguar o conflito que o próprio criou.

Referências:

[1] “A Bolívia, laboratório de uma nova estratégia de desestabilização”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Novembro de 2019.

[2] « Une gifle cinglante pour la « coalition occidentale » », par Général Dominique Delawarde, Réseau Voltaire, 21 octobre 2020.

[3] “Retorno triunfal de Evo Morales à Bolívia”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 10 de Dezembro de 2020.

[4] “Revealed : The UK supported the coup in Bolivia to gain access to its ‘white gold”, Matt Kennard, Daily Maverick, March 8, 2021.

[5] “Analysis of the 2019 Bolivia Election,” Jack R. Williams and John Curiel, MIT, February 2020.

[6] “A primeira guerra da OTAN-MO vira a ordem regional”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 25 de Março de 2020.

[7] “Alto Carabaque : vitória de Londres e de Ancara, derrota de Soros e dos Arménios”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 24 de Novembro de 2020.

Publicado em Rede Voltaire em 16.03.2021. Tradução JORNAL PURO SANGUE.

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